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sábado, 21 de março de 2015


LOUCOS, COM MUITO ORGULHO

Logo após uma discussão acalorada, uma enxurrada de idéias, críticas e questionamentos em plenas nove horas da manhã, Silvia me abraça em frente ao filtro de água e diz: "Você se arrependeu vir pra cá? Acha que aqui só tem loucos?"
Na hora eu nem soube o que responder, porque em nenhum minuto arrependimento passou pela minha cabeça, nem essa questão da loucura... Eu estava tão dentro desse turbilhão que começou no primeiro dia de aula (ou uma semana antes), que não tinha conseguido olhar de fora. 
Abracei de volta e disse: "claro que não!".
Mas depois, pensando e tomando um pouco essa distância que eu não alcançava estando entre uma sala de aula e outra, uma reunião e outra, uma família e outra, um cavalo e outro, acho que mudaria minha resposta:
Não, eu não me arrependi de vir pra cá mas sim, eu acho que aqui só tem loucos. 
De fato, essa escola não é normal. Só loucos para começar o ano expondo os professores e funcionários a um carnaval de rua, no qual a foliã mais animada e fantasiada é a própria chefe. Ao lado dela, pais que largaram o trabalho no meio do expediente para brincar na rua com seu filhos. Levados pelas professoras e professores, em suas fantasias profanas, destituindo de qualquer poder a figura daquele que ensina. Crianças soltas por aí, cada hora pegando na mão de um adulto, sem saber bem para onde vão. 
Loucos. 
E nas aulas, os planejamentos que são alterados em função da fala das crianças. "Iríamos fazer tal coisa, mas agora acho que acrescentaremos outra, pois fulano levantou outra questão importante". Projetos inventados pelo interesse de bebês! Como alguém de 1 ano determina o rumo do ano?!
Loucos. 
E as reuniões, a gente faz em qualquer lugar. Como é que pode discutir os valores do sócio-construtivismo na fila do café? Planejar uma integração, enquanto almoça? Inventar uma seqüência didática brincando na areia?
Loucos. 
Sem contar as reuniões de pais... Elas não começam na hora, sabe por quê? Porque os pais e professores ficam se abraçando horas quando vão se cumprimentar. Não sei da onde tiram tanto assunto. E tanto afeto. 
Loucos. 
Mas a maior loucura, que posso identificar com meu olhar de estrangeira, é a maneira como essa escola se mantém há 30 anos. Trin-ta! Eu não tinha nem nascido!! Passaram 10.950 dias e a Alecrim continua com o mesmo perfume fresco. Uma vez eu disse para alguém: "a Alecrim é uma escola dessas que não se faz mais". E é. Uma escola artesanal, feita com as mãos. Uma instituição que negou o sistema industrial de educação, a linha de produção de sujeitos. Que se arrisca a olhar cada um de frente, encarar as vicissitudes de seus alunos e parceiros e deixar que essas marcas apareçam no cotidiano da escola. Isso sem perder de vista o coletivo, acreditando que 1+1 é mais que dois, que juntos é bem mais legal. 
A Alecrim é uma escola que se revê todos os dias e a chefe te abraça na frente do filtro. 
Isso só pode ser coisa de louco.